[texto] quando eu me descobri

legenda da foto: verifiquei e tô sem.

eu não preciso usar sutiã. eu não preciso me maquiar. não preciso ser magra. não preciso ter cabelo liso e comprido.
meu nariz não precisa ser pequeno. e eu também não preciso me depilar. não preciso passar cremes ou ser vaidosa. muito menos usar um salto alto. também não preciso usar sapatilhas ou rasteirinhas de strass.

eu não sou obrigada a fazer nada. eu só preciso fazer o que eu EU quiser.

posso ter olheiras e deixa-las a mostra. posso não pentear o cabelo. posso colorir ele.
posso ter dreads também. ou nem ter cabelo.

e foi difícil entender isso, demorou e, as vezes, doeu.

até os 18 tive uma vida conservadora – principalmente por conta da religião – que já deixo claro que se te faz feliz, ok, siga em frente.
esse não é um texto-criticando-a-religião.

embora preenchida pela amizade e amor que eu tinha ali, eu ainda me sentia vazia e infeliz.
me sentia culpada por motivos que vão desde escutar músicas-que-não-são-de-deus a sair pra beber com meus amigos; mas eu não entendia porque algo que me fazia tão bem poderia ser considerado um pecado.

e, resumindo, eu sai – e essa foi a melhor decisão da minha vida.
não por causa da religião, mas porque, fora dali, eu conseguia ser eu mesma.
e foi aí que eu conheci a vida alternativa que tenho experimentado a cada dia que passa.

eu sai.
conheci pessoas com pensamentos políticos e sociais diferentes do que eu sempre vi.
aquilo tudo que eu tinha aprendido estava sendo destruído.
e eu decidi descobrir mais.

descobri que você pode beber até gorfar e ser responsável (o que é ser responsável, afinal?)
descobri que você pode se experimentar drogas e/ou continuar usando-as e não terminar na rehab ou na cracolândia.
descobri que você pode transar com quem e quando no primeiro encontro você bem entender, ter vários parceiros sexuais e não engravidar/pegar uma doença; e que isso não te torna pior ou melhor do que ninguém.
descobri que eu tenho o direito de usar a roupa que eu bem entender sem ser assediada.
descobri que posso ficar bêbada e que meu corpo continua sendo meu. que estupro não é culpa da vítima que estava andando por um lugar escuro ou estava com roupas curtas; culpa é desse pessoal que ainda não aprendeu a não estuprar.
descobri que ninguém é de ninguém. eu sou minha, você é seu. que ciúme existe sim, mas o que muda é a forma como a gente lida com ele.

descobri como mulher.
não preciso ser submissa.
posso sair sozinha pra fazer o que eu bem entender, incluindo beber até cair e transar, ou simplesmente pra dançar.
que ser mulher não me impede de ir viajar sozinha.
que mulher bonita é a que questiona e luta.
que eu posso gozar sim: sozinha ou acompanhada; e que fingir orgasmo é uma crueldade com nós mesmas.
que eu posso casar ou não e que ninguém tem nada a ver com isso; e que eu também posso ter filhos, ou não – e que eu não sou muito nova pra decidir que não quero reproduzir e que meu pensamento provavelmente não vai mudar. mas se mudar, tudo bem também.
descobri que posso falar e fazer putaria sim. posso me entender sexualmente, posso me experimentar.
que todas nós temos direito a uma orientação sexual de qualidade, sem separar meninos de meninas. falar de camisinha, de piroca, de pepeca, de doenças, de orgasmo, de vacinas e de aborto (etc) sem vergonha ou restrições – porque, afinal, depois a culpa vai ser minha, não?!
também descobri que aborto não é bonito, mas é um direito nosso.

descobri que ninguém precisa se assumir pra ninguém.
que eu posso ser o que eu quiser e que, se eu não quiser me definir, eu não preciso.

descobri que eu posso experimentar e continuar ou desistir.
que eu posso ou não ter feito tudo isso que eu citei acima e continuar sendo uma pessoa boa – ou não.
e que isso não é da conta de ninguém.

descobri tanto.
tanto, tanto.
tanta.
tanta gente que descobriu isso também.

descobri que posso descobrir mais.
e que quanto mais a gente descobre as coisas externas, mas a gente se descobre internamente.

mas não aprendi nada sozinha.
o universo sabe o que faz e atrai gente que ensina gente.
que aprendeu e agora quer compartilhar.

obrigada henfilianos. obrigada feministas.
obrigada mochileiros, veganos, alternativos.
vocês que me deram pés-na-bunda doídos, obrigada também.

hoje, encontrei a felicidade que sempre busquei e estou quase completa.
quase porque ainda falta mais.
compartilhar é preciso.

sei pouco.
e é passando pra frente
que a gente aprende
mais.

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4 thoughts on “[texto] quando eu me descobri

  1. Nathaly, lendo seu texto me vi todinha. Também fui obrigada a ter cabelão, a ler muita coisa escondida, a não poder ouvir “música do mundo”, não poder ver filme do Almodovar, não usar calça comprida, tanta coisa que vai somando e cansa demais a gente. Fui dar meu primeiro beijo aos 22, pra vc ter uma ideia. Hoje, sou uma pessoa independente, estou livre das amarras da religião, sou feminista, amante das diversidades e das amizades! Quero mesmo muito te conhecer pessoalmente! Beijão!!!

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