[texto] quantos mundos uma conversa muda?

no caminho, versos sobre essa nossa solidão acompanhada estavam aqui engasgados.
já organizava meus pensamentos e conclusões através de textos mentais que, assim que chegasse em casa, eu pretendia passar para o virtual; acho mais fácil me entender dessa maneira.

mas, ali no primeiro banco do ônibus com as janelas molhadas pela chuva, ela me fez mudar de ideia.
Sabrina, é esse o nome da pessoa que me fez repensar meu discurso e que inundou minha vida, naquele instante, com outros versos.

trocamos nomes. descobrimos os trabalhos uma da outra. sobre a chuva, sobre o calor – ela prefere esse também.
já sei que é santista e expliquei porque deixei de torcer para meu time. falamos também sobre o bendito celular – e o whatsapp – que não sabemos bem se ajuda ou atrapalha.

eu e uma desconhecida conversamos. e poderia ser mais um daqueles papos rasos pra socializar no busão, mas não foi. e há quanto tempo não faço isso com um conhecido? quantos dos meus amigos sabem do que se trata o livro novo que estou lendo? Pois é, agora a Sabrina sabe.

A gente se encontra!“. Tomara que sim, porque, apesar do papo ter sido meio tímido, ele mudou (ou consolidou, sei lá) coisas aqui dentro dessa mente tagarela.

É meio confuso pensar que nós, as mesmas pessoas que vivem rodeadas por pessoas (reais ou virtuais) porque têm medo da solidão, são as mesmas pessoas que não aprofundam relações. Não! Calma…não é mais um texto sobre amor romântico… é sobre os sentimentos que, apesar do calor do tempo lá fora, seguem frios aqui dentro.

Um conhecido entra no ônibus; você finge dormir. Um velhinho puxa assunto – como eles adoram fazer isso! – a gente finge usar o celular. Seu amigo precisa desabafar; você escuta cansado – afinal, ele fala demais, diz que vai passar e tudo fica bem – mas, calma, tudo isso por mensagem, porque não dá tempo de ligar ou papear pessoalmente, pra talvez oferecer um abraço. Viajamos aos compromissos diários sempre com fones no ouvido que – ironicamente – nos impedem de ouvir coisas simples (e valiosas) como a nossa mente. Livros, que dizem ter a solução, silenciam a resposta que vem do lugar mais óbvio – daqui de dentro. Celulares, tão acesos, nos cegam diante dos nossos próprios amigos no almoço ou na mesa do bar. “Só um minuto, tô resolvendo algo importante!”.

sozinhosTodos passam despercebidos diante do nosso egoísmo.
Contraditório como vivemos rodeados, falamos pelos cotovelos, com várias pessoas ao mesmo tempo, com amigos distantes, amigos que moram do outro lado da rua..mas, parecemos cada vez mais calados.

Ainda no ônibus, ao mesmo tempo em que concluía que as pessoas vivem rodeadas de distrações – amigos, celulares, livros – com medo de escutarem a pessoa mais importante – elas mesmas, refletia sobre o medo contraditório de se envolver. Se envolver com amigos, se envolver em conversas, se entregar pra uma risada ou para um choro. Que medos bobos a gente tem! As mesmas pessoas que anseiam por histórias intensas – nesse caso, elas focam principalmente nas de amor – são as mesmas que têm medo de aprofundar amizades, que se sustentam com conversas rasas, amizades superficiais e famílias que só vê no Natal.

Que diferença a dedicação da nossa atenção para uma pessoa faz?

Pra concluir, trago à memória a conversa recente que tive com um amigo, na qual falei que me sentia meio incapaz diante de tantas diferenças (principalmente ao me deparar com moradores de rua); o que eu poderia fazer para ajudar? Converse, foi o que ele me respondeu. Tá bom, a gente sabe, conversa não mata fome. Mas enche o coração e as vezes isso basta.

Essa me fez lembrar a vez em que fiquei horas sentada perto do monumento de Tiradentes, na praça principal de Ouro Preto. Várias pessoas passaram por ali, observei-as caminhando e a noite chegando, até que não-sei-bem-que-horas, eu e um hippie começamos a conversar. Ele estava meio alcoolizado – talvez sob efeito de drogas – mas o papo ia bem, obrigada. Falamos sobre muitas coisas – me contou sobre os lugares onde já morou, que gostaria de ter uma esposa que gostasse muito dele e, se não me falha a memória, que a bebida era uma espécie de refúgio – nos abraçamos e, no final da conversa, quando eu já estava saindo pra pegar meu ônibus, ele pediu que eu escolhesse uma das tornozeleiras que ele estava vendendo; era um presente porque, segundo ele, eu fui a única pessoa que parou pra conversar com ele naquela noite. VEJA BEM: ele estava me agradecendo porque CONVERSEI com ele.

Quantos mundos uma conversa muda?

Difícil responder. Só saiba, Sabrina, que seu papo mudou minha noite.
E talvez meus próximos dias dentro do ônibus, no almoço ou na mesa do bar.

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