[texto] O maior perrengue de todos: o machismo

O pessoal sempre gosta de saber como foram as viagens que fiz, do que mais gostei e qual foi o maior perrengue, além de se preocupar com a questão do assédio por eu ser garota. Eu adoro relatar tudo, principalmente as partes boas (por isso raramente vão me ver tocando em assuntos como esse). Mas, dessa vez foi quase impossível não falar sobre isso…e, antes de tudo, pra deixar claro pra todos, inclusive para as minas que querem viajar: esse não é um texto DESmotivacional; a situação a seguir é SUPER REAL e infelizmente aconteceu durante um mochilão, mas pode rolar em QUALQUER lugar, todos os dias. É apenas um texto de reflexão, ilustrado pela foto de ilustras da Frida Kahlo que encontrei no Paraguay. Boa (ou má?) leitura.


Durante um mochilão conheci um rapaz. Nos curtimos e seguimos curtindo juntos, até que eu o convidei pra seguir comigo na volta para o Brasil e ele aceitou. Mesmo nunca tendo mochilado (ou seja, sempre viajado tranquilamente e com conforto) e sabendo de todas as condições do rolê que eu estava fazendo, ELE aceitou. E o até então namoro (sim, fui pedida em namoro) de verão se tornou o maior perrengue de toda a viagem. Eu até poderia dedicar esse texto ao fato do rapaz despertar todo santo dia reclamando (como por exemplo, pelo fato de eu não ter um colchão inflável) e como isso me incomodava. Mas, algo me incomodou ainda mais e me fez digitar tudo isso aqui: a humilhação por ser mulher.

O moço dizia que mulher tem que ficar em casa enquanto o homem trabalha (não existe problema em querer ser uma dona de casa, existe problema no cara te obrigar a ser assim), por isso ele se sentia na obrigação de ir buscar comida pra gente durante a viagem. Mas, ao mesmo tempo, dizia que nós gostamos de sugar o dinheiro dos homens, como a sua mãe faz com seu pai. Certa vez, brigou comigo porque eu decidira falar com uma pessoa x e ela não me entendera, afinal, eu era mulherbrasileira e não falava espanhol tão bem quanto ele – pena que esqueceu que eu estava viajando sozinha antes de conhecê-lo e me virava super bem. Queria viver e ter uma filha comigo, mesmo eu dizendo que sou muito nova, que não tenho estabilidade financeira, carreira, casa própria e nenhuma condição pra por um ser no mundo e, principalmente, mesmo afirmando com todas as letras que EU NÃO QUERO ter um filho. “Não me importo…eu quero”. Certa vez, apontou para a minha perna que estava por fazer e disse que eu deveria me depilar, sem se importar com a MINHA vontade em relação ao MEU corpo – me depilo porque GOSTO, mas durante uma viagem como essa é incerto quando conseguirá se depilar, então EU nem ligo. Dizia que mulher que transa no primeiro encontro, é fácil, que aquela que faz sexo com quem bem entende, é puta. Que eu não tinha princípios e valores por ser assim. Afirmou que não precisa usar preservativo, nem fazer exames porque AIDS é coisa de gente suja. E, pra fechar bonito, certo dia junto com um caminhoneiro, afirmava que mulheres são péssimas no volante; mulher caminhoneira? Nem pensar.

Mas, tudo bem, né?! São só piadas e comentários inocentes, né?!
Não.

Eu fazia questão de mostrar pra ele e pra qualquer outra pessoa que resolvesse me humilhar, que eu é que tava viajando sozinha, eu que carregava a maior e mais pesada mochila sozinha e eu é que armava a barraca sozinha. Eu, mulher. Não gosto de me gabar e usava isso pra me proteger e, na verdade, devemos ser respeitad@s e ponto final, independente das nossas escolhas. Mas quem se importa? Quem se importou? Afinal, eu era apenas uma infantil, cabeça de ventoimatura que só pensa em viajar.

Ufa! Logo eu que não estava procurando parceiro algum, tive 25-30 longos dias de namoro – daqueles que eu nunca desejei pra mim, nem pra ninguém; daqueles que pode acontecer em qualquer lugar e situação, como disse no começo do texto; um namoro com um cara opressormachista, conservador ciumento – igual a um montão que tem solto por aí. O único relacionamento sério que eu tive na vida e que aceitei, mesmo na dúvida, porque deixei de aproveitar muita coisa na vida pelos Nãos que espalhei por aí e me permiti dizer sim, no fundo acreditando que era uma aventura de verão e que não teria mal algum me divertir um pouco. Eu não sabia como ele era….

Mas, a pergunta que não quer calar é: como aguentei tanto tempo? Olha, realmente não sei! Pra extravasar, retrucava na esperança de quebrar esse machismo. Eu acreditava que conseguiria muda-lo doce ilusão e, de certa maneira, estava tranquila porque chegaria em São Paulo e tudo estaria terminado. No fundo, também, eu estava usando aquela experiência pra entender, na pele e da pior maneira possível, a história que muitas mulheres passaram e ainda passam.

Como doeu pensar em todas as mulheres que sofreram/sofrem isso e não puderam/podem dar um pé-na-bunda de um cara assim, seja pelos filhos, por medo, insegurança ou por qualquer outro motivo… foi difícil, é difícil. Pra mim, essa não passaria de mais uma aventura, daquelas famosas de verão que passam rapidinho. E passou, eu sabia. E ao contrário do que podem pensar, não me desiludi com o amor, porque não era amor e porque sei que existem homens legais e dispostos a quebrar pensamentos machistas. Não chorei. Mas, doeu – não por mim, mas por todas as outras que não conseguem escapar desse sofrimento.

Mas, e quando não passa? E quando há mulheres que suportam toda humilhação e violência (doméstica, verbal e psicológica) e não se sentem seguras para fugir e/ou denunciar?

Foi difícil, mas finalmente entendi. Eu, que nunca tinha passado por uma situação de machismo extremo, entendi como isso é angustiante…Agora, mais do que nunca, ficou a lição: machistas não passarão. Não porque a luta continua  t o d o s  os dias, começando por mim. No trabalho, na faculdade, no ônibus, na família ou em qualquer parte do mundo.

RECADO PARA AS GATAS, não deixem de viajar ou se relacionar por medo, mas estejam de olhos abertos para não serem OPRIMIDAS!


Ah..e pra fechar com chave de ouro,  enquanto caminhava pelo metrô terminando de escrever esse texto, um cara me olhou e “lançou” um beijo quase que no pé do meu ouvido. Situação recém saída do forno pra confirmar o machismo-nosso-de-cada-dia detalhado na história anterior.

Por favor, guardem essas e muitas outras histórias no coração e PAREM de dizer que machismo não existe, que nos fazemos de vítimas, que homem também sofre, que somos feminazis e odiamos os homens, ok?! Odiamos não, gente. O que a gente odeia (e luta contra) são essas e mais babaquices que homens e mulheres (!!!!) insistem em reproduzir. Chega de violência, de “elogios” ou de qualquer outro tipo de humilhação a QUALQUER tipo de pessoa. Repense seus hábitos, pensamentos, discursos etc. Todos nós, e me incluo nessa, temos algo pra mudar.

E torço pra que vocês não tenham que passar por situação parecida pra entender e respeitar a luta alheia.

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8 thoughts on “[texto] O maior perrengue de todos: o machismo

      1. Sinto muito por isso, mas…, sem generalizar meninas.
        Ah, Nathaly, seu blog é ótimo, eu adorei a maneira simples e envolvente que você escreve. E que pena que você não gostou de Córdoba … estou indo pra lá dia 11/11. Tomara que eu tenha sensação diferente da sua em relação a cidade…kkk.

        Abraço.

      2. Sem generalizar, mas sempre de olho pra não sermos oprimidas 😉

        Obrigada, Jeferson. Ando meio parada na escrita por…preguiça! Mas comentários como esse me dão vontade de voltar a escrever hahahaha
        Acho que o lance com Córdoba foi mais interno do que externo; mas toda cidade tem seu lado bom! Vá, caminhe, desfrute, descubra e me conta depois o que achou.

        Boa viagem :3

  1. Amiga, nao e so homem machista existem mulheres machista , e maes que criam seus filhos machista..

    1. Oi Simone! Eu concordo contigo…infelizmente, todos nós reproduzimos machismo, racismo, homofobia e vários outros tipos de preconceito. mas, nessa história, nós mulheres somos vítimas e protagonistas da luta…e não devemos ficar caladas! beijao

  2. Como vc consegue viajar tanto sem ter estabilidade financeira? Pergunto para saber, eu também quero viajar, mas sou pobre e fodido kkk . Se eu largar tudo não vou ter dinheiro… Vc se vira com artesanato ou faz alguns bicos nas viagens?

    1. Oi Vladmir!

      Hoje, há um anos desde a volta de um mochilão, estou trabalhando e com grana pra viajar em feriados, finais de semana e férias. To desfrutando de uma vida “tradicional” 🙂

      Mas já viajei com pouca grana mesmo…coisa de r$10 por dia.

      Eu tentava ao máximo gastar só com comida, buscava sempre Couchsurfing ou acampar livre (na praia, Em terrenos, posto de gasolina) e viajava na base da carona.

      Já vendi vestido na praia, brigadtrabalhei entrgandoentregando panfleto e alugando caiak e pedalinho. Foram trabalhos que apareceram pelo caminho. tem que ter a cara de pau e ir perguntar se não tão precisando de alguém prs trabalhar jahahha

      Existem sites tipo o WorkAway e o Worldpakers em que você troca trampo por hospedagem. Pode ser uma opção !

      Eu também já pedi comida em alguns lugares como restaurante. Mas adorava pedir em mercado. 1) porque sempre conseguimos algo mais natural como frutas e legumes 2) porque sempre, no final do dia, alguma coisa estraga e eles jogam foram. Mó desperdício né?

      Enfim…a gente vai se virando!

      Tem um outro post aqui que se chama “Quanto?” E pode te ajudar mais. No mais, espero ter ajudado.

      Qualquer coisa, manda outra msg e vamos falando 🙂

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