[texto] estressada aos vinte e poucos

 

era meu primeiro dia de volta a uma academia. eu estava realmente comprometida e empolgada com aquilo. tive um papo rápido com a professora do sesc e ela me perguntou:

– certo, Nathaly! por que você tá aqui? perder peso, condicionamento? sente alguma dor?
– bem, Laura, eu trabalho umas 9h (quando não são mais) sentada, chega no final do dia e sinto dores nos joelhos…

durou dois meses. e antes disso, foram três de hidroginástica. mas, sabe de uma coisa? é difícil manter o ritmo quando você não tem tempo.

é. a ficha caiu de novo sobre o rumo que a minha vida estava levando.

aos 22, eu estou sem tempo.

já perdi as contas de quantas vezes me atrasei pra encontrar meu namorado, quantas vezes marquei um encontro com alguma amiga e desmarquei em cima da hora porque apareceu um imprevisto no trabalho e consigo contar nos dedos quando consigo chegar antes das 21h em casa.

aos 22, me pego planejando o almoço do dia seguinte pra dar tempo de fazer tudo em uma hora e pouco. Ir ao banco e ao correio no mesmo almoço? nem pensar. um compromisso de cada. não dá tempo de fazer tudo. 

aos 22, logo cedo, abro uns três textos interessantes antes de trabalhar. já já eu leio. e ali eles ficam todo o dia. envio pro meu e-mail na esperança de ler no ônibus, mas, a única coisa que quero fazer no trajeto pra casa é ouvir rádio e cantar junto com as minhas músicas pop favoritas. eu queria cantar alto, mas não pode.

aos 22, estou cansada

física e psicologicamente. o barulho de São Paulo é ensurdecedor. as buzinas, as pessoas falando, esses ruídos que, as nove horas da manhã se misturam ao calor, ao ar seco, poluição e o abafado do busão.

olho pros carros e penso: como alguém pode querer isso (sobre o trânsito) pra vida dela?

dentro do metrô, o ar condicionado. mas, em contrapartida, me irrito com o som ensurdecedor do sinal das portas fechando.

piiiiiiiiiiiiiii. próxima estação, barra funda.

tem dias em que eu corro, corro e corro pra chegar no trabalho e ter meu momento de paz: ouvir uma música no último volume e me perder uns minutos nas baboseiras do Facebook.

eu corro, corro e corro, mas parece que não vou a lugar nenhum.
eu faço, faço e falo, mas parece que nada acontece.

aos 22, estou com um corpo sedentário.

a mão dói de tanto digitar. os joelhos doem por falta de movimento. as pernas doem pela calça jeans apertada do dress code. o pé enche de chulé por causa da mistura entre sapatos fechados & calor exorbitante. a coluna se curva por causa da cadeira desconfortável. o nariz dói pela rinite que sofre com o tempo seco.

não dá tempo de alongar. não dá tempo de espreguiçar. até dá tempo de fazer uns exercícios, mas que corpo aguenta com essa rotina? uma hora chega o momento entre escolher malhar ou dormir um pouco mais. e, cê sabe, sonhar sempre vence.

aos 22, eu sonho em comer bem.

uma alimentação mais fresca, que me promete a cura de algumas doenças que me disseram que só saram com remédio. menos indústria, mais vida. menos bicho, mais planta. mais cura pela natureza, menos farmácia biqueira com CNPJ. a gente tenta, mas a santa comida vira uma válvula de escape quando você tem o sabor como o momento de diversão e felicidade no seu dia.

“preciso ir rápido, tenho muita coisa pra entregar” ou “preciso correr, porque tenho outras coisas pra fazer”. faça suas escolhas, mas escolha rápido.

não há tempo pra cozinhar seu próprio alimento. não há tempo pra comer com a família. não há tempo pra comer. comer bem então? nós nos limitamos a comer em shoppings – cheio de barulho, fechados e sem luz do sol; ou em botecos, cheios de comidas engorduradas e numa quantidade além.

aos 22, desconectada de mim, conectada com o mundo
a todo instante conectada com a internet, mas sem tempo pra me conectar com o bicho mais importante da minha vida: eu.

sem tempo pra yoga. se meditar eu durmo. sem paciência pra psicóloga. umbanda. reiki. meditação. paciência pra n a d a. tempo então? ráa!

aos 22, eu vejo olheiras, vejo um rosto e um corpo cansados.
eu vejo uma garota cheia de sonhos, mas sem tempo nenhum pra coloca-los em prática. cheia de ideias, mas sem ânimo pra tirar do papel. cheia de textos pra escrever, mas sempre sem tempo. marcando compromissos com muita antecedência, desmarcando as vezes, vivendo entre o estar com a família ou ir viajar sozinha x sair com os amigos do namorado ou com os meus x ficar em casa e ver filme ou sair pra viajar.

aos 22, eu vejo escolhas que não fazem sentido.
calças jeans coladinhas. sutiãs que marcam. sapatos apertados. crachá pendurado no pescoço. lojas americanas pós-almoço. mochilas cheias de pesos desnecessários. costas doloridas. joelhos cansados. cumprindo ordens de quem paga meu salário. pegar um bronze da luz que vem do computador. ouvir sua voz do áudio do whatsapp.

aos 22, eu vivo de menos.
dois dias na semana pra relaxar. reconectar um corpo há dias desconectado e que segue no piloto automático.

me desculpe a poesia, mas de gracioso esse estilo de vida não tem nada. por isso, aos 22, eu escolhi parar. mais uma vez, eu renunciei.

são várias as desculpas que a gente insiste em contar. mas, a verdade é que, se a gente continuar assim, as tarefas nunca vão acabar. a semana nunca será tranquila. as alterações não vão parar de chegar. o trânsito nunca vai diminuir. as agendas sempre lotadas. as caixas de e-mail sempre enchendo. os nossos clientes sempre cobrando. a gente sempre saindo tarde. sempre comento mal. sempre sem tempo pra cuidar do corpo & da mente. sempre querendo viajar, mas sempre sem tempo.

não é nada pessoal não!
esse é um texto genérico sobre qualquer empresa, qualquer pessoa ou qualquer coisa – um trabalho, um curso, filhos etc e poderia ser pra qualquer idade. se não fosse sobre uma garota de 22 anos. estressada.

(que escolheu dizer chega porque se não ela perde de vista onde quer chegar.)



esse texto não é exatamente sobre nada, mas é praticamente sobre tudo.
pode ser uma menina cheia de privilégios reclamando de tudo ou de mais uma oprimida pelo sistema capitalista x CLT que beneficia os mais ricos e esmaga os mais pobres, cê que sabe.

só sei que a foto é direta: verifique os freios. e pare quando precisar.

 

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