[texto] o dia em que Fidel morreu

havana, cuba – 25 nov. 2016

eu já estava deitada, quase dormindo quando o brasileiro que estava no mesmo quarto que eu no hostel subiu correndo. perguntei o que passava e ele, na euforia, respondeu em espanhol que Fidel morreu. justo no dia em que, no Malecon tomando run com refrigerante de cola, falávamos que essa possível morte poderia trazer alguma mudança. eu sei la o que pensei e voltei a dormir.

no outro dia, não se falava em outra coisa: o pais esta em luto nacional por nove dias e, na televisão, durante esse tempo, só podem passar matérias sobre isso, como mensagens de outros países, depoimentos de pessoas próximas a Fidel e documentários sobre – e, no rodapé, noticias sobre o mundo. ah! e não pode beber/vender bebidas alcoólicas nesse período..

Fidel foi o líder da Revolução Cubana, que começou mesmo la pra 1954. Falhou algumas vezes ate, de fato, vingar. E começou a vingar com a saída do barco Granma do México (com +- 81 pessoas dentro deles com destino a Cuba): justamente no mesmo dia da morte de Fidel.

pura coincidência?

pra mim, que alimentava esse sonho de conhecer Cuba principalmente por causa do seu sistema econômico e politico, ‘e uma honra estar aqui nesses dias. confuso e intenso como a ilha foi pra mim nesses 31 dias.

‘e um pais cheio de defeitos como todos os outros – inclusive, como o meu. nesses dias tentei, ao máximo, viver como uma pessoa daqui. transporte, comida, hospedagem – sempre o mais próximo possível da vida do cubano (lembrando que isso ‘e um privilegio e ate certo egoismo, porque nos turistas temos mais dinheiro e uma bagagem diferente do povo daqui). tentei viver o mais próximo possível desse povo que luta todos os dias pra viver.

e a luta ‘e tao grande que, pra confessar, esse foi o primeiro lugar onde eu fiquei com vergonha de tentar economizar ou pechinchar. ‘e um pais que as vezes me deu raiva, pelas cantadas insuportáveis da rua, que quase me fez chorar, ao ouvir dificuldades de pessoas daqui, e que me fez refletir, pensando na dificuldade (quase impossibilidade) de sair do pais. me fez me colocar no meu lugar, reconhecer meus privilégios, inclusive.

‘e um pais dos carros antigos lindos, mas que soltam fumaça bem escura pra todos os lados. ‘e um pais onde você pode viajar tranquilamente, em um ônibus moderno e confortável, comer comida gostosa e nutritiva, desfrutar de conforto nos quartos maravilhosos dos hotéis. se você tem dinheiro, claro. porque a realidade do cubano não é essa. o cubano não tem a riqueza de frutas e vegetais que nos, de fora, temos, não tem a variedade de coisas que o capitalismo nos oferece (embora isso esteja mudando), nem a oportunidade de viajar tanto quanto nos, porque é difícil e caro.

aqui os outdoors de publicidade não existem. substitua esses por outdoor de frase de revolução, luta e socialismo. ai esta Cuba.

Cuba foi um pais que me cansou. que me alegrou. que me deu raiva. Mas, também me arrepiou no momento em que vi toda aquela quantidade de gente na Plaza de La Revolucion ontem (29 nov. 2016) pra ver a homenagem ao “comandante jefe de la revolucion, Fidel Castro”. me arrepiou no momento em que ouvi todos cantando o hino nacional, repetindo frases de igualdade e luta junto com grandes chefes mundiais como Maduro, Evo e, claro, Raul.

Foi uma homenagem cansativa, assim como essa viagem, mas ambas marcaram a minha vida pra sempre. Com chave de ouro, digo “hasta luego” pra esse pais confuso, complicado, ambíguo e INTENSO, como eu, outros viajantes e cubanos definimos. Um pais onde, em contrapartida do que citei antes, eu não vi NENHUMA família vivendo nas ruas (no máximo, vi umas 5 pessoas que estavam embriagadas), não vi NENHUMA criança trabalhando, onde eu consigo ver um discurso que engloba mulheres (mais do que brasil, menos que Venezuela) e que, segundo dados citados ontem, tem taxa zero de desnutrição.

se o socialismo funciona? eu não sei.
quem sou eu pra falar? uma brasileira turista com seus eletrônicos capitalistas.

se Cuba funciona? se Cuba resiste? se essa ‘e a melhor ou pior maneira pra viver? quem sou eu pra falar?

Um pais confuso, complicado, ambíguo e INTENSO. Que não agrada a todos, mas, que fez milhares e milhares de pessoas viajarem horas pra chegar ate a praça pra dizer HASTA SIEMPRE ao Fidel.

Pra quem acha que precisa vir rápido pra Cuba “antes que ela mude”, sinto lhe informar, mas ela já esta mudando ha uns 15 anos – palavras de um próprio cubano. É difícil falar alguma coisa: O socialismo parece estranho pra um povo que acredita na meritocracia, repete discurso de meios de comunicação de massa e nunca se deu ao trabalho de sair do quarto de hotel (ou da frente do celular) pra tentar ver o mundo que passa da porta pra fora.

Por fim, Cuba me deixou confusa. Ao mesmo tempo que sobram, me faltam também as palavras. ‘E arriscado concluir qualquer coisa. Tudo depende do seu ponto de vista e da sua bagagem.

Por agora, so posso querer e dizer pra Fidel e pra Cuba: hasta luego!

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